segunda-feira, 9 de março de 2015

Feminismo liberal e feminismo radical.

Conversando com uma amiga sobre o movimento feminista, chegamos a conclusão de que a maioria das mulheres quando começa ter contato com o feminismo, logo se conecta ao feminismo liberal (foi assim comigo também). E isso é totalmente compreensível especialmente para nós mulheres brancas de classe média.
O feminismo liberal diz que se ser vadia é ser livre, somos todas vadias. Fazer menage, pode praticar BDSM e consumir pornografia (dizem que há “pornografia feminista”), tudo bem se isso te dá prazer. Nós de fato acreditamos nessa liberdade sexual pois somos seres sexuais e nada mais comum do que querermos viver nossa sexualidade de forma livre e plena.
O feminismo do I choose my choice (eu escolho a minha escolha) diz que se você se sente bem de cabelo alisado, maquiagem e salto alto, ótimo, você pode fazer o que você quiser. Inclusive homens que gostam de saia e batom podem se dizer mulheres.
O feminismo liberal não problematiza a raiz da opressão – parece se esquecer que vivemos numa sociedade misógina que tem uma hierarquia de gênero e nos obriga a nos encaixarmos nela. E como diz Lierre Keith, caso você não tenha percebido, estamos na parte inferior dessa hierarquia.
Desque quando nos descobrem fêmeas começa o processo de nos moldarem à feminilidade. Sheilla Jeffreys nos fala que a feminilidade é a marca da nossa inferioridade, é o que nos faz diferente do ser humano padrão, o homem.
Gostar de maquiagem, salto alto, menage, BDSM e pornografia é o que a sociedade espera de nós. Fomos educadas para sermos bibelôs (belas, frágeis e caladas) e servirmos aos machos da espécie. A sociedade e a mídia, em especial, nos bombardeiam o tempo todo com mensagens de que precisamos ser lindas- e isso significa nos adulterarmos da raiz do cabelo até o dedão do pé- num ciclo sem fim de gastos (de tempo e dinheiro) e insatisfação eterna pois os padrões de beleza são irreais.
Detonam nossa autoestima o tempo todo e nos fazem acreditar que o que precisamos para ser feliz é continuar sempre nessa busca inútil para alcançar um padrão de beleza inalcançável e também conseguir um homem. Toda mulher precisa de um homem, nos dizem. Quantas mulheres se descobrem lésbicas depois de vários relacionamentos infelizes com homens?!
Como nossa autoestima é baixa e acreditamos que realmente precisamos de um homem para ser validada como pessoas, acreditamos também que nunca devemos negar sexo ao nosso parceiro e se não gostamos de tapas e algemas, claro que ele irá nos trocar por outra mulher. Somos assim descartáveis.
Então, fazer menage e gostar de BDSM, por exemplo, é o que a sociedade misógina espera de nós. Essas práticas, num mundo machista só nos validam como fantoches dos fetiches misóginos masculinos. BDSM é problemático pois fetichiza torturas antigas, é um conjunto de práticas racistas e misóginas. (Leia mais sobre isso.) A pornografia é degradante para as mulheres. As atrizes de filmes pornôs são prostitutas mais bem pagas, mas igualmente são estupradas e descartáveis. Um feminismo que defende pornografia e prostituição está sendo incoerente pois está concordando com a exploração e mercantilização das mulheres. (Leia mais sobre isso.)
A falta de problematização da situação material da mulher na sociedade misógina, faz com que o feminismo liberal seja atraente para as mulheres pois dá a (falsa) sensação de poder.
Mas que poder temos nós enquanto 50 mil mulheres são estupradas por ano e outras 5 mil asssassinadas? Isso só no Brasil.
Que poder temos nós mulheres enquanto meninas ao redor do mundo tem suas vulvas mutiladas e outras tantas são obrigadas a se casarem com homens que na maioria das vezes tem idade para serem seus avós?
Que poder temos nós se possuímos apenas 1% das propriedades existentes? Nós, mulheres,realizamos 66% do trabalho no planeta, mas só recebemos 10% da renda?
Que poder temos nós quando as mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos em 2012, apenas 9,08% são mulheres? (E nós mulheres somos 52% da população.)
Que poder temos nós enquanto tantas mulheres estão em situação de prostituição e vulnerabilidade social?
O feminismo liberal é de fato individualista, não faz análise da situação atual das mulheres– não compreende que nenhuma mulher será livre enquanto o patriarcado existir. Não existe empoderamento de uma enquanto tantas outras estão sendo assediadas, espancadas, mutiladas e assassinadas. Nós mulheres somos uma classe, uma casta sexual, por mais empoderada ou poderosa que uma mulher se considere, ela não está livre do machismo pois este é estrutural. Não existe libertação feminina individual. Nós não seremos livres enquanto houver gênero. No nível de evolução e tecnologia que temos atualmente, a distinção entre sexos e sua consequente imposição violenta de gênero já não faz sentido algum. É nisso que o feminismo radical acredita: na união das mulheres e na abolição de gênero.

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