quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Feminismo e vegetarianismo

No grupo do whats surgiu um debate sobre as relações entre feminismo e veganismo/direitos dos animais. Eu sou ovo-lacto-vegetariana e ainda pretendo ser vegana por entender que o indústria da carne é cruel, os animais são criados (em situações precárias- vide uma granja em que os frangos nem tem espaço para se locomoverem) e assassinados para o nosso prazer alimentício, sendo que praticamente todos os animais que comemos comem grãos, então comemos o bicho pra pegar a proteína que o bicho pega do grão. A água e grãos usados para criar os animais que comemos seria suficiente para alimentar todas as pessoas humanas. O desequilíbrio ecológico que a pecuária causa é preocupante, nosso hábito carnívoro está contribuindo muito para a degradação do planeta.

“Segundo um relatório publicado em 2006 pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), a pecuária é ‘uma das duas ou três maiores contribuintes para os mais graves problemas ambientais, em todos os níveis, do local ao global’ , incluindo problemas de degradação do solo, mudanças climáticas e poluição do ar, poluição e esgotamento da água e perda de biodiversidade. Deste modo, mudanças nos hábitos alimentares que envolvam a redução do consumo de carne ou mesmo a adoção de dietas veganas seriam estratégias possíveis a fim de combater o aquecimento global.” (1)



As grandes industrias da carne também financiam as grandes campanhas eleitorais e sabemos que quem paga a banda escolhe a música, então já sabemos quem manda em nosso país. (2)

Mas e aí? o que o feminismo tem a ver com os direitos dos animais?  Os animais não-humanos (vocês lembram que também somos animais, né?) são oprimidos pelos humanos. Não é possível pensar numa sociedade igualitária, sem machismo, mas que oprime outra espécie. A situação das fêmeas não-humanas é ainda pior pois são exploradas duas vezes: primeiro por seus “produtos” (leite e ovos) e depois por sua carne. Há vários paralelos entre machismo e carnivorismo: mulheres e animais são considerados inferiores e assim são objetificados, violentados e usados para servir e agradar aos homens, estes que estão no topo da sociedade misógina e especista.

Muitas pessoas acreditam que um “tratamento humanitário” seria o ideal para então consumirmos animais não-humanos, a famosa vaquinha feliz da qual exploramos tirando leite e depois a assassinamos, tiramos suas vísceras, cortamos e comemos sua carne. Para quem luta pelo fim da opressão e exploração das mulheres, esse tipo de argumento é inaceitável pois se equipara ao homem que bate na esposa num dia e no outro lhe dá rosas. Não existe opressão com tratamento humanitário, o que estamos querendo é encontrar desculpas para tornar o especismo ou machismo eticamente aceitável.

Ainda continuarei a escrever esse texto. No momento deixo mais duas citações interessantes, sugestões de leitura e referências.

“Tanto os animais quanto os seres humanos sofrem e morrem. Se tivesse de matar seu porco, você muito provavelmente não seria capaz de comê-lo. Ouvir o grito do porco, ver o sangue espirrar, ver o filhote ser levado para longe da mãe, ver o olhar de morte no olho do animal reviraria seu estômago. De modo semelhante, se os aristocratas ricos que perpetram as condições do gueto realmente ouvissem os gritos de sofrimento que ali se ouvem ou vissem a morte dos garotinhos famintos, ou assistissem ao estrangulamento da humanidade e dignidade, eles certamente não continuariam a matança. Mas os ricos são protegidos desse horror. [...] Se for capa de justificar a matança para comer carne, você será capaz de justificar as condições do gueto. Quanto a mim, eu não posso justifiar nem um nem outro.” (Dick Gregory - 3)


“Durante séculos - desde mamães felizes até galinhas sorridentes na grelha - as vítimas da violência tem sido retratadas como encantadas por cumprir os deveres das suas funções percebidas." (ADAMS, Carol J. - 3))


PARA SABER MAIS:

Blog Feminismo e Vegetarianismo: http://feminismoevegetarianismo.blogspot.com.br/
Podcast interessantíssimo sobre veganismo (no final tbm fala sobre a relação com o feminismo): https://soundcloud.com/fabiochaves/podcast-fracione-portuguese


REFERÊNCIAS

1: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pecu%C3%A1ria_e_sustentabilidade
2: http://www.excelencias.org.br/docs/financia_desigualdade.pdf
3: ADAMS, Carol J. A política sexual da carne: relação entre carnivorismo e dominância masculina, 1990. Aqui tem uma resenha da obra: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2014000100026&script=sci_arttext

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Crítica feminista ao BDSM

Há muito tempo tenho vontade de falar sobre BDSM embasada em minhas experiências nesse meio e também nas minhas leituras, reflexões e conversas em críticas feministas sobre o tema. Como o assunto está em pauta atualmente, me sentindo preparada ou não, preciso falar sobre isso.

Minha primeira experiência sexual foi com meu primeiro namorado e logo casamos. Ele me traiu e a partir daí comecei a fantasiar com dominação masculina. Foi acontecendo aos poucos: comecei a gostar de tapas na bunda, depois na cara, de ser xingada...
Através da internet conversava com "dominadores" e as minhas fantasias de submissão foram aumentando. Meu casamento acabou (graças a Deosa!) e tive diversas experiências sexuais sem bdsm, mas a dominância masculina estava sempre lá também, eu sentia que por estar vivendo minha sexualidade merecia levar uns tapas (com certeza isso foi influência da criação religiosa que tive) . E isso me excitava pois na adolescência eu tinha lido muitos romances Julia, Bianca e afins. Eu acreditava totalmente que meu papel de mulher era ser submissa e satisfazer o homem que estivesse comigo. Sonhava com o príncipe encantado e todas esses estereótipos que a sociedade, o cinema, as novelas, a publicidade e etc, reforçam o tempo todo.

Conheci um cara que tinha vontade de ser submisso, eu achava incomum, mas queria agradá-lo e então comecei a dar uns tapas, xingar... e comecei a gostar da coisa porque aquilo satisfazia ele e eu queria que ele gostasse de mim. Ficamos juntos por cerca de um ano e fomos experimentando diversas práticas ("inversão", spanking, cuckold e etc). Era um relacionamento aberto e nesse tempo eu "dominei" outros caras também. Eu me sentia poderosa, forte e realmente acreditava que estava dominando. Nessa mesma época tive contato com o feminismo, o feminismo liberal, que diz que o que importa é se sentir bem. Eu não fazia uma análise crítica da realidade, não percebia que a minha posição de dominância era momentânea, fetichizada por "homens machistas" (desculpem o pleonasmo") que sabiam muito bem que acabado o jogo erótico eu voltava pra minha classe (sexual): a oprimida. Eu também não pensava que se eu desagradasse o cara ele facilmente poderia "virar o jogo": me bater ou me estuprar.

Comecei a participar de um grupo de BDSM do facebook. Participei de alguns encontros presenciais e um "dominador" que era o manda-chuva do grupo disse que iria me "treinar" para eu ser uma "dominadora" e para isso eu precisava me submeter a ele. Eu gostei da ideia porque ainda tinha fantasias de submissão. Eu realmente não quero entrar em detalhes de como foi o encontro privado que tivemos, ainda é traumático pra mim. Eu demorei muito tempo pra perceber que aquilo foi um abuso e como me senti realmente humilhada. Tentava me convencer de que eu tinha consentido com aquilo, no plano das ideias aquilo me excitava, não fazia sentido eu não ter gostado.

Conforme a ficha foi caindo, fui me afastando do universo BDSM, nesse meio tempo ainda tive outras experiências de "dominação". Demorei  pra perceber o quanto o sadomasoquismo é machista, racista e lesbofóbico. Demorei especialmente para entender o motivo de alguns homens fantasiarem com a dominação feminina. As feministas radicais me ajudaram a entender o quanto isso tudo é problemático.

Conheci diversas mulheres que também vivenciaram abusos no BDSM, soube de casos de mulheres que morreram em sessões fetichistas. Isso me entristece muito.

Eu percebo que a sociedade reforça o tempo todo a sexualidade feminina submissa a do homem, por isso não consigo mais perceber BDSM como algo libertário, é apenas mais uma esfera misógina que machuca as mulheres e reforça a supremacia masculina; seja a mulher dominando ou se submetendo, a hierarquia de gênero continua firme e forte e é o gênero que precisamos destruir para aí então poder pensar numa heterossexualidade saudável para nós mulheres.

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