quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Ainda sobre depressão

Eu estou com depressão há algum tempo já. Faço tratamento psiquiátrico há um ano, e há um mês retornei à psicanálise porque finalmente percebi que os remédios só tratam os sintomas e não a doença em si.
É preciso ir às raízes do problema pra poder consertar tudo e mesmo eu sendo "radical" em muita coisa, demorei para perceber que precisava fazer isso. Especialmente porque sou privilegiada: sou branca, classe média, pós-graduada, tenho meu apto, moro com 4 gatos lindos, tenho uma relação amorosa saudável e gosto muito do meu trabalho.
Um parágrafo especial para falar das amigas que me apoiaram e continuam me apoiando: eu perdi algumas amigas nesse período, mas tenho um carinho enorme por essas que permanecem ao meu lado mesmo nas dificuldades, sem o apoio delas eu com certeza não estaria mais aqui.
Enfim, por ser privilegiada não me importei muito com o diagnóstico de depressão. Era só tomar os remédios e a vontade de acabar com a minha vida passava. Eu continuava vivendo meio dopada, meio sem sentir muita coisa, mas continuava ali viva. Tanta gente tem a vida bem pior que a minha, me sentia ridícula em dizer que estava "sofrendo".
Nesse um ano em que fui diagnosticada com depressão tive muitos altos e baixos extremos mesmo. Me afundei em comida, cigarro e séries para não pensar muito na minha vida, para não sentir. Minha casa refletia o caos que estava minha vida: imunda e muito bagunçada. O ano passou e no segundo semestre a psiquiatra falou que em novembro eu poderia começar o processo de parar de tomar os remédios. Eu achava que estava bem, que iria conseguir ficar sem.
De repente acordei no fundo do fundo do poço, desejando mais do que nunca a morte e pensando fixamente em formas de fazer isso. Foi aí que entendi que não tinha melhorado nada, que eu realmente estava mal e precisava de ajuda profissional. Não só psiquiátrica(que eu já estava tendo), mas terapêutica, pra tratar das minhas questões mesmo.
E assim tenho feito. Toda semana vou lá e penso alto com a psicanalista. Ela pontua situações, eu choro, eu falo. Choro e falo ao mesmo tempo. E aos poucos tenho me sentido mais leve. Estou sentindo que as coisas estão se acalmando dentro de mim, que consigo resolver esse quebra-cabeça e aos poucos vou me curando, me tornando uma pessoa emocionalmente saudável.
Aos que leram até aqui, obrigada. É importante para mim compartilhar isso com vocês. E um muito obrigada as pessoas amigas que me apoiam da melhor maneira que podem. E agradeço também as pessoas em geral que apoiam pessoas com depressão, que compreendem que isso não é frescura ou falta de força de vontade, como eu erroneamente achava que era. Vamos lidando com uma situação de cada vez e sobrevivendo a mais um dia, o que nesse momento já é grande coisa.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Novos tempos.

Estou muito feliz trabalhando com alfabetização. Dia desses, um aluno do segundo ano criou e escreveu uma história tão bem que a família não acreditou que ele tinha feito, depois com outros escritos, perceberam que realmente ele tinha melhorado muito.
Estar trabalhando com algo que sempre tive vontade e que é desafiante está me ajudando muito a superar a depressão. Além disso tenho conhecido ótimas profissionais da educação, temos trocado figurinhas e até estamos começando um projeto com os imigrantes haitianos.
Gratidão a minha sista, que sempre me aponta novos horizontes e especialmente: me encoraja a alcançá-los. E gratidão a mim mesma, por ter conseguido recuperar minha vontade de viver e estar cheia de motivos para isso.

sábado, 8 de agosto de 2015

Dia dos pais.

Eu não sei o que me irrita mais: se é o dia das mães ou dos pais.
No dia das mães tem toda aquela coisa de dizer que ser mãe é uma dádiva divina, que mães são seres especiais que colocam os filhos acima de tudo, que mães são mulheres que não tem vida própria. Uma mulher que não é mãe não é uma mulher completa. Para uma mulher, ter filho é imposição, nunca uma escolha, que é o que realmente deveria ser.
Dia dos pais é uma babação de ovo, pai é herói, exemplo para os filhos e etc. Mas é só dar uma busca rápida no google e você vê trocentos casos de pais que estupraram as filhas. Segundo o Senso Escolar de 2011, 5,5 milhões de crianças brasileiras não tem o nome do pai na certidão de nascimento. E a sociedade ainda insiste no mito do "golpe da barriga", culpabilizando as mulheres, como sempre.
Pai que abandona o filho é normal. Mãe que abandona o filho é uma desnaturada que merece queimar no inferno.
Pai que cuida do filho é um guerreiro, um homem maravilhoso. Mãe que cuida do filho... bem, ela só está fazendo a sua obrigação, nada demais.
Nessas duas datas "comemorativas" eu só consigo pensar nas mulheres que se desdobram em mil para poder sustentar seus filhos, naquelas que foram abandonadas por seus cônjuges em algum momento do desenvolvimento de suas crianças e que agora precisam se virar sozinha. Lembro das mães que são chamadas de exploradoras porque cobram dos pais que paguem a pensão alimentícia. Penso nas meninas que são abusadas sexualmente por seus pais e padastros e não conseguem contar pra ninguém porque são constantemente ameaçadas.
Não dá pra fechar os olhos e imaginar que vivemos numa sociedade linda onde os homens não estupram, não espancam suas parceiras ou ex-parceiras ou que se importam minimamente com seus filhos. Há exceções, eu sei, mas estas só provam a regra geral. Infelizmente.

sábado, 11 de julho de 2015

"Ser mulher" não é um sentimento!

Me incomoda quando “mulheres trans” (pessoas do sexo masculino que se reivindicam mulheres) dizem que “se sentem mulheres”. Ser mulher é um sentimento?????
Há algum tempo tenho fugido dos estereótipos de gênero imposto a nós mulheres. Não me arranco nenhum pelo do meu corpo, não uso maquiagem e sou careca. As pessoas me olham estranho e eu sei muito bem porque: não estou seguindo o estereótipo de feminilidade. Não sou e faço questão de não ser a linda donzela, que se adultera da cabeça aos pés para ser linda. Mesmo não “aparentando” ser mulher, a sociedade constantemente me lembra a que casta sexual eu pertenço. Sofro assédio nas ruas (não tanto, mas ainda acontece), o que falo em alguns lugares não é levado a sério porque sou mulher: devo estar na tpm, ser “mal-comida” ou só burra mesmo.
A sociedade me lembra que sou mulher quando entro em qualquer portal de notícias e vejo reportagens sobre mulher que foi estuprada, outra espancada e outra assassinada. Isso todo dia. A sociedade me lembra que gênero é hierarquia quando fico sabendo de alguma pessoa da mesma casta sexual que a minha morreu por aborto inseguro. Não somos donas de nossos corpos.
A sociedade me lembra que sou mulher quando ouço algum vizinho gritando com a esposa pra ela levar um cerveja ou reclamando porque a janta não está pronta. A sociedade me lembra que sou o segundo sexo quando fico sabendo das meninas que são estupradas, geralmente por seus pais ou outros homens próximos.
Ser mulher não é um sentimento, não é uma roupa, não é uma maquiagem, não é uma dieta, não é uma depilação, não é uma cirurgia. Ser mulher é uma imposição às pessoas nascidas com vulva/vagina.
Nascer fêmea humana na nossa sociedade significa ser a casta sexual oprimida e explorada, especialmente se você é negra e pobre. Significa nunca ser uma pessoa plena e livre. Nascer fêmea significa ter que viver em uma caixinha muito apertada chamada feminilidade e ainda não é garantia de que está tudo bem. E se você quiser ser tratada como gente, só te resta lutar. E aí vão te chamar das piores coisas que existem, especialmente de louca. Mas quem é “normal” nessa sociedade doente?!

domingo, 5 de julho de 2015

Histórias cruzadas: um filme sobre desumanização e humanização ao mesmo tempo.

   Acabei de assistir Histórias Cruzadas (The help - no original),  um filme baseado num livro de mesmo nome. Para ler a sinopse, clique aqui.
   O filme retrata a vida das mulheres negras que trabalham como empregadas domésticas e babás em Mississipi - EUA nos anos 60. É uma história cheia de dor, sofrimento e desumanização das pessoas negras.
   E pensar que isso é tão recente: aconteceu em menos de 50 anos atrás. E mais absurdo ainda: pensar que existe gente branca que acredita ser superior as pessoas negras. Pensar que a maioria das empregadas domésticas atualmente (95,4) são mulheres negras. Que precisam deixar suas famílias e ter longas jornadas cuidando de famílias brancas, limpando suas casas e criando seus filhos.
  Sobre a PEC das domésticas, projeto de emenda constitucional aprovado recentemente, o Geledés informa que são 70 anos de atraso em relação as conquistas da CLT.
   Eu não tenho muito a dizer sobre o assunto, sou branca de classe média. Me revolto muito com a desigualdade racial e de classe. Quando nós brancos vamos limpar nossa própria sujeira? Quando a população negra será indenizada por todo o dano que a escravidão causou? Quando enfim se dará a "Lei Áurea"?

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Sobre a depressão

Eu sempre achei que depressão fosse frescura… até acontecer comigo.
Eu não sei se faz parte do quadro clínico ou das reações adversas das medicações que tomo; mas tenho momentos de alegria enorme, gargalhadas e afins e logo em seguida um aperto no peito, muita tristeza e vontade grande de morrer.

Eu me acho idiota por ter depressão, eu tenho uma vida bem razoável: tenho meu próprio apartamento, tenho ótimas amigas, um namorado maravilhoso, gatos incríveis e um emprego bacana. Mas eu sei que existem muitas pessoas em estado de miséria, pessoas que não tem acesso a direitos mínimos, como moradia decente, saúde, educação, segurança e lazer. Eu sei que existem pessoas que sofrem as mais terríveis violências. Também sei que existem pessoas com muito dinheiro que gastam muito em porcarias que não precisam pra se mostrarem superiores a pessoas que odeiam.
Eu vejo um mundo tao evoluído em suas tecnologias, desbravando planetas, descobrindo cura para doenças...e ao mesmo tempo vejo pessoas tão egocêntricas e mesquinhas, que se acham superiores, que acreditam que pessoas pobres são pessoas preguiçosas.

Eu entrei na educação muito antes de me tornar feminista ou esquerdista. Mas meu objetivo sempre foi mudar a educação, transformar a sociedade. E em quase 10 anos de profissão, eu não percebo mudanças significativas. Meu trabalho de formiguinha não significa nada.Formiguinhas são esmagadas por qualquer um.

Eu olho para a rua e vejo trocentos carros, cada um com um só passageiro. Eu ando de ônibus e vejo a precariedade desses, desde horários até mesmo a frota. Eu entro na sala dos professores na hora do intervalo e ouço professor chamando aluna de favelada vagabunda. Eu vejo professores usando os mesmos métodos de ensino de trocentos anos atrás. Eu vejo alunos com dificuldades em se adequar a esse ensino ultrapassado e sem sentido.

Eu vejo tanta coisa… vejo um mundo de bosta. Eu tento me reunir com iguais, formar coletivos, fazer algo prático pra melhorar a vida das pessoas em situação pior que a minha. Mas nos coletivos feministas estamos discutindo depilação e maquiagem. Nos coletivos veganos estamos trocando informações sobre o novo tofupiry.


Tá tudo tão errado. Eu estou tão cansada. Eu não me acho melhor que ninguém. Eu não me acho nada. Eu sou um nada. Eu não consigo mudar nada nessa sociedade escrota. E é doloroso conviver com isso.Eu já não tenho forças. Eu queria muito estar morta. Mas parte de mim ainda resiste. Ainda.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Confabulações sobre feminismo, veganismo e educação.

Eu sou uma pessoa com ideias revolucionárias e um tanto idealistas e não sei exatamente como lidar com isso. Vou explicar.

Sou feminista radical e isso significa que acredito que a base da opressão que nós mulheres sofremos está baseada na imposição do gênero no momento em que identificam nosso sexo biológico.

Eu desejo uma sociedade em que as mulheres sejam vistas como pessoas. Que não tenha mais 50 mil mulheres estupradas e 5 mil assassinadas por ano (isso só no Brasil). Eu quero uma sociedade em que não exista gênero, porque esse estereótipo socialmente imposto nos violenta, nos faz vulneráveis, pobres e etc.
Mas eu não consigo visualizar esse mundo. Eu tenho feministado… a partir do momento que percebi a estrutura patriarcal da sociedade, não teve como eu não ser feminista, não tem como eu deixar de ser. Tenho ajudado as mulheres no que posso, tenho escrito alguns textos…. vejo mais mulheres se achegando ao feminismo. Mas me parece que caminhamos a passos tão lentos. Isso me desanima demais. É doloroso saber das mulheres espancadas, estupradas, mortas em abortos clandestinos, assassinadas por quem acreditavam ser seus amores.


Sou ovo-lacto-vegetariana me tornando vegana aos poucos. Acredito que já evoluímos o suficiente para não precisarmos mais comer animais.
Importante fazer uma pausa aqui para dizer às pessoas comedoras de carne que insistem em dizer que vegetais também sentem dor: observe um alface sendo plantado, crescendo e sendo colhido e observe uma criação de bovinos e o matadouro. Se você acha mesmo que não tem nenhuma diferença, pode parar de ler por aqui. Você não vai me entender mesmo.
A minha questão com o veganismo é que de certa forma ele é individualista. Em alguns momentos da história ele é “modinha”, mas não consigo visualizar todas as pessoas do mundo parando de comer cadáveres. Algumas pessoas com quem convivo tem repensado o consumo de animais e até tem se tornado ovo-lacto-vegetarianas também. Mas me parece que caminhamos a passos muito lentos para a libertação animal.




Sou professora e acredito numa educação que realmente transforme a realidade em que vivemos. Vejo o atual modelo de escola como ultrapassado e desconectado da realidade das crianças e adolescentes. Uma escola de qualidade não teria muros, turmas, carteiras enfileiradas. Uma escola que não seguisse a organização das fábricas, que não estivesse preocupada apenas em moldar trabalhadores e sim em ser um espaço de descobertas, interações e aprendizagens, em que os alunos não fossem meros receptores de informações, em que não houvesse essa hierarquização professor X aluno, em que a escola realmente fizesse parte da comunidade…. uma educação assim, centrada no aluno, na sua realidade e respeitando-o como indivíduo, certamente seria exitosa e transformaria radicalmente a sociedade.
Mas poucos são os professores que pensam assim, é mais prático manter tudo como está: usar a mesma cartilha, mesmo que ela seja um bosta… afinal, se eu consegui aprender a ler e escrever assim, por que as crianças de hoje em dia não aprenderiam? Uma reforma na educação daria muito trabalho, todos teríamos que estudar, aprender, tentar e ver como seria melhor. Trabalho para professores, alunos, comunidade e governo. Mas quem se importa, não é mesmo?!


Enfim, todas essas questões tão importantes para mim são o que me move e ao mesmo tempo me deprime. Eu preciso aprender a lidar com essas coisas.

sábado, 21 de março de 2015

"Pornografia feminista"

Falar em pornografia feminista é algo absurdo.
A pornografia é parte do patriarcado capitalista que coage,objetifica, fetichiza, estupra, violenta e mercantiliza mulheres.
Não tem nada de feminista nisso. Feminismo é a ideia de que mulheres são pessoas. O feminismo visa destruir o patriarcado capitalista que oprime e explora mulheres.


Referências (da imagem):
http://iamatreasure.com/…/01/treasures_v5-UpdatedAug2013.pdf
Bracey, D. H. (1982). The juvenile prostitute: Victim and offender Victimology, 8(3-4), 151-160.
Silbert, M.H., & Pines, A.M. (1981). Sexual child abuse as an antecedent to prostitution. Child Abuse and Neglect 5:407-411.
Melissa Farley, from “Prostitution and Trafficking in Nine Countries: An Update on Violence and Posttraumatic Stress Disorder”www.prostitutionresearch.com
U.S. Department of Justice, Assessment of U.S. Government Activities to Combat Trafficking in Persons: 2004

domingo, 15 de março de 2015

O que é o feminismo radical?

"O Feminismo Radical é uma corrente feminista que se assenta sobre a afirmação de que a raiz da desigualdade social em todas as sociedades até agora existentes tem sido o patriarcado, a dominação do homem sobre a mulher. A Teoria do Patriarcado considera que os homens são os primeiros responsáveis pela opressão feminina e que o patriarcado necessita da diferenciação sexual para se manter como um sistema de poder, fundamentado pela explicação de que homens e mulheres seriam em essência diferentes.

Para vencer a opressão feminina, as feministas desta corrente defendem que é fundamental, mas não basta apenas, concentrar os esforços na busca das explicações sobre as diferenças entre os sexos e a subordinação da mulher no sistema patriarcal, mas que as mulheres devem se unir na luta contra os homens (argumento criticado e considerado por outras feministas como “guerra dos sexos”), assim como, devem rejeitar o Estado e todas as instituições formais por ser produto do homem e, portanto, de caráter patriarcal."

Elizabete Rodrigues da Silva em Feminismo Radical Pensamento e Movimento.


sábado, 14 de março de 2015

Encoraje as meninas a falarem!

As meninas precisam saber que o que elas tem a falar é importante. Encorajem-as a darem voz às suas ideias!


segunda-feira, 9 de março de 2015

Feminismo liberal e feminismo radical.

Conversando com uma amiga sobre o movimento feminista, chegamos a conclusão de que a maioria das mulheres quando começa ter contato com o feminismo, logo se conecta ao feminismo liberal (foi assim comigo também). E isso é totalmente compreensível especialmente para nós mulheres brancas de classe média.
O feminismo liberal diz que se ser vadia é ser livre, somos todas vadias. Fazer menage, pode praticar BDSM e consumir pornografia (dizem que há “pornografia feminista”), tudo bem se isso te dá prazer. Nós de fato acreditamos nessa liberdade sexual pois somos seres sexuais e nada mais comum do que querermos viver nossa sexualidade de forma livre e plena.
O feminismo do I choose my choice (eu escolho a minha escolha) diz que se você se sente bem de cabelo alisado, maquiagem e salto alto, ótimo, você pode fazer o que você quiser. Inclusive homens que gostam de saia e batom podem se dizer mulheres.
O feminismo liberal não problematiza a raiz da opressão – parece se esquecer que vivemos numa sociedade misógina que tem uma hierarquia de gênero e nos obriga a nos encaixarmos nela. E como diz Lierre Keith, caso você não tenha percebido, estamos na parte inferior dessa hierarquia.
Desque quando nos descobrem fêmeas começa o processo de nos moldarem à feminilidade. Sheilla Jeffreys nos fala que a feminilidade é a marca da nossa inferioridade, é o que nos faz diferente do ser humano padrão, o homem.
Gostar de maquiagem, salto alto, menage, BDSM e pornografia é o que a sociedade espera de nós. Fomos educadas para sermos bibelôs (belas, frágeis e caladas) e servirmos aos machos da espécie. A sociedade e a mídia, em especial, nos bombardeiam o tempo todo com mensagens de que precisamos ser lindas- e isso significa nos adulterarmos da raiz do cabelo até o dedão do pé- num ciclo sem fim de gastos (de tempo e dinheiro) e insatisfação eterna pois os padrões de beleza são irreais.
Detonam nossa autoestima o tempo todo e nos fazem acreditar que o que precisamos para ser feliz é continuar sempre nessa busca inútil para alcançar um padrão de beleza inalcançável e também conseguir um homem. Toda mulher precisa de um homem, nos dizem. Quantas mulheres se descobrem lésbicas depois de vários relacionamentos infelizes com homens?!
Como nossa autoestima é baixa e acreditamos que realmente precisamos de um homem para ser validada como pessoas, acreditamos também que nunca devemos negar sexo ao nosso parceiro e se não gostamos de tapas e algemas, claro que ele irá nos trocar por outra mulher. Somos assim descartáveis.
Então, fazer menage e gostar de BDSM, por exemplo, é o que a sociedade misógina espera de nós. Essas práticas, num mundo machista só nos validam como fantoches dos fetiches misóginos masculinos. BDSM é problemático pois fetichiza torturas antigas, é um conjunto de práticas racistas e misóginas. (Leia mais sobre isso.) A pornografia é degradante para as mulheres. As atrizes de filmes pornôs são prostitutas mais bem pagas, mas igualmente são estupradas e descartáveis. Um feminismo que defende pornografia e prostituição está sendo incoerente pois está concordando com a exploração e mercantilização das mulheres. (Leia mais sobre isso.)
A falta de problematização da situação material da mulher na sociedade misógina, faz com que o feminismo liberal seja atraente para as mulheres pois dá a (falsa) sensação de poder.
Mas que poder temos nós enquanto 50 mil mulheres são estupradas por ano e outras 5 mil asssassinadas? Isso só no Brasil.
Que poder temos nós mulheres enquanto meninas ao redor do mundo tem suas vulvas mutiladas e outras tantas são obrigadas a se casarem com homens que na maioria das vezes tem idade para serem seus avós?
Que poder temos nós se possuímos apenas 1% das propriedades existentes? Nós, mulheres,realizamos 66% do trabalho no planeta, mas só recebemos 10% da renda?
Que poder temos nós quando as mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos em 2012, apenas 9,08% são mulheres? (E nós mulheres somos 52% da população.)
Que poder temos nós enquanto tantas mulheres estão em situação de prostituição e vulnerabilidade social?
O feminismo liberal é de fato individualista, não faz análise da situação atual das mulheres– não compreende que nenhuma mulher será livre enquanto o patriarcado existir. Não existe empoderamento de uma enquanto tantas outras estão sendo assediadas, espancadas, mutiladas e assassinadas. Nós mulheres somos uma classe, uma casta sexual, por mais empoderada ou poderosa que uma mulher se considere, ela não está livre do machismo pois este é estrutural. Não existe libertação feminina individual. Nós não seremos livres enquanto houver gênero. No nível de evolução e tecnologia que temos atualmente, a distinção entre sexos e sua consequente imposição violenta de gênero já não faz sentido algum. É nisso que o feminismo radical acredita: na união das mulheres e na abolição de gênero.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Feminismo e vegetarianismo

No grupo do whats surgiu um debate sobre as relações entre feminismo e veganismo/direitos dos animais. Eu sou ovo-lacto-vegetariana e ainda pretendo ser vegana por entender que o indústria da carne é cruel, os animais são criados (em situações precárias- vide uma granja em que os frangos nem tem espaço para se locomoverem) e assassinados para o nosso prazer alimentício, sendo que praticamente todos os animais que comemos comem grãos, então comemos o bicho pra pegar a proteína que o bicho pega do grão. A água e grãos usados para criar os animais que comemos seria suficiente para alimentar todas as pessoas humanas. O desequilíbrio ecológico que a pecuária causa é preocupante, nosso hábito carnívoro está contribuindo muito para a degradação do planeta.

“Segundo um relatório publicado em 2006 pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), a pecuária é ‘uma das duas ou três maiores contribuintes para os mais graves problemas ambientais, em todos os níveis, do local ao global’ , incluindo problemas de degradação do solo, mudanças climáticas e poluição do ar, poluição e esgotamento da água e perda de biodiversidade. Deste modo, mudanças nos hábitos alimentares que envolvam a redução do consumo de carne ou mesmo a adoção de dietas veganas seriam estratégias possíveis a fim de combater o aquecimento global.” (1)



As grandes industrias da carne também financiam as grandes campanhas eleitorais e sabemos que quem paga a banda escolhe a música, então já sabemos quem manda em nosso país. (2)

Mas e aí? o que o feminismo tem a ver com os direitos dos animais?  Os animais não-humanos (vocês lembram que também somos animais, né?) são oprimidos pelos humanos. Não é possível pensar numa sociedade igualitária, sem machismo, mas que oprime outra espécie. A situação das fêmeas não-humanas é ainda pior pois são exploradas duas vezes: primeiro por seus “produtos” (leite e ovos) e depois por sua carne. Há vários paralelos entre machismo e carnivorismo: mulheres e animais são considerados inferiores e assim são objetificados, violentados e usados para servir e agradar aos homens, estes que estão no topo da sociedade misógina e especista.

Muitas pessoas acreditam que um “tratamento humanitário” seria o ideal para então consumirmos animais não-humanos, a famosa vaquinha feliz da qual exploramos tirando leite e depois a assassinamos, tiramos suas vísceras, cortamos e comemos sua carne. Para quem luta pelo fim da opressão e exploração das mulheres, esse tipo de argumento é inaceitável pois se equipara ao homem que bate na esposa num dia e no outro lhe dá rosas. Não existe opressão com tratamento humanitário, o que estamos querendo é encontrar desculpas para tornar o especismo ou machismo eticamente aceitável.

Ainda continuarei a escrever esse texto. No momento deixo mais duas citações interessantes, sugestões de leitura e referências.

“Tanto os animais quanto os seres humanos sofrem e morrem. Se tivesse de matar seu porco, você muito provavelmente não seria capaz de comê-lo. Ouvir o grito do porco, ver o sangue espirrar, ver o filhote ser levado para longe da mãe, ver o olhar de morte no olho do animal reviraria seu estômago. De modo semelhante, se os aristocratas ricos que perpetram as condições do gueto realmente ouvissem os gritos de sofrimento que ali se ouvem ou vissem a morte dos garotinhos famintos, ou assistissem ao estrangulamento da humanidade e dignidade, eles certamente não continuariam a matança. Mas os ricos são protegidos desse horror. [...] Se for capa de justificar a matança para comer carne, você será capaz de justificar as condições do gueto. Quanto a mim, eu não posso justifiar nem um nem outro.” (Dick Gregory - 3)


“Durante séculos - desde mamães felizes até galinhas sorridentes na grelha - as vítimas da violência tem sido retratadas como encantadas por cumprir os deveres das suas funções percebidas." (ADAMS, Carol J. - 3))


PARA SABER MAIS:

Blog Feminismo e Vegetarianismo: http://feminismoevegetarianismo.blogspot.com.br/
Podcast interessantíssimo sobre veganismo (no final tbm fala sobre a relação com o feminismo): https://soundcloud.com/fabiochaves/podcast-fracione-portuguese


REFERÊNCIAS

1: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pecu%C3%A1ria_e_sustentabilidade
2: http://www.excelencias.org.br/docs/financia_desigualdade.pdf
3: ADAMS, Carol J. A política sexual da carne: relação entre carnivorismo e dominância masculina, 1990. Aqui tem uma resenha da obra: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2014000100026&script=sci_arttext

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Crítica feminista ao BDSM

Há muito tempo tenho vontade de falar sobre BDSM embasada em minhas experiências nesse meio e também nas minhas leituras, reflexões e conversas em críticas feministas sobre o tema. Como o assunto está em pauta atualmente, me sentindo preparada ou não, preciso falar sobre isso.

Minha primeira experiência sexual foi com meu primeiro namorado e logo casamos. Ele me traiu e a partir daí comecei a fantasiar com dominação masculina. Foi acontecendo aos poucos: comecei a gostar de tapas na bunda, depois na cara, de ser xingada...
Através da internet conversava com "dominadores" e as minhas fantasias de submissão foram aumentando. Meu casamento acabou (graças a Deosa!) e tive diversas experiências sexuais sem bdsm, mas a dominância masculina estava sempre lá também, eu sentia que por estar vivendo minha sexualidade merecia levar uns tapas (com certeza isso foi influência da criação religiosa que tive) . E isso me excitava pois na adolescência eu tinha lido muitos romances Julia, Bianca e afins. Eu acreditava totalmente que meu papel de mulher era ser submissa e satisfazer o homem que estivesse comigo. Sonhava com o príncipe encantado e todas esses estereótipos que a sociedade, o cinema, as novelas, a publicidade e etc, reforçam o tempo todo.

Conheci um cara que tinha vontade de ser submisso, eu achava incomum, mas queria agradá-lo e então comecei a dar uns tapas, xingar... e comecei a gostar da coisa porque aquilo satisfazia ele e eu queria que ele gostasse de mim. Ficamos juntos por cerca de um ano e fomos experimentando diversas práticas ("inversão", spanking, cuckold e etc). Era um relacionamento aberto e nesse tempo eu "dominei" outros caras também. Eu me sentia poderosa, forte e realmente acreditava que estava dominando. Nessa mesma época tive contato com o feminismo, o feminismo liberal, que diz que o que importa é se sentir bem. Eu não fazia uma análise crítica da realidade, não percebia que a minha posição de dominância era momentânea, fetichizada por "homens machistas" (desculpem o pleonasmo") que sabiam muito bem que acabado o jogo erótico eu voltava pra minha classe (sexual): a oprimida. Eu também não pensava que se eu desagradasse o cara ele facilmente poderia "virar o jogo": me bater ou me estuprar.

Comecei a participar de um grupo de BDSM do facebook. Participei de alguns encontros presenciais e um "dominador" que era o manda-chuva do grupo disse que iria me "treinar" para eu ser uma "dominadora" e para isso eu precisava me submeter a ele. Eu gostei da ideia porque ainda tinha fantasias de submissão. Eu realmente não quero entrar em detalhes de como foi o encontro privado que tivemos, ainda é traumático pra mim. Eu demorei muito tempo pra perceber que aquilo foi um abuso e como me senti realmente humilhada. Tentava me convencer de que eu tinha consentido com aquilo, no plano das ideias aquilo me excitava, não fazia sentido eu não ter gostado.

Conforme a ficha foi caindo, fui me afastando do universo BDSM, nesse meio tempo ainda tive outras experiências de "dominação". Demorei  pra perceber o quanto o sadomasoquismo é machista, racista e lesbofóbico. Demorei especialmente para entender o motivo de alguns homens fantasiarem com a dominação feminina. As feministas radicais me ajudaram a entender o quanto isso tudo é problemático.

Conheci diversas mulheres que também vivenciaram abusos no BDSM, soube de casos de mulheres que morreram em sessões fetichistas. Isso me entristece muito.

Eu percebo que a sociedade reforça o tempo todo a sexualidade feminina submissa a do homem, por isso não consigo mais perceber BDSM como algo libertário, é apenas mais uma esfera misógina que machuca as mulheres e reforça a supremacia masculina; seja a mulher dominando ou se submetendo, a hierarquia de gênero continua firme e forte e é o gênero que precisamos destruir para aí então poder pensar numa heterossexualidade saudável para nós mulheres.

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