quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Qualé a dos desenhos estereotipados?

     Na última postagem falei sobre dois livros que foram responsáveis por grandes mudanças na minha prática pedagógica, até hoje, afinal sempre tem livros mexendo com nossas convicções. Hoje vou falar sobre o terceiro livro que também me deu o que pensar e foi amor desde a primeira linha.
     A criança e sua arte de Viktor Lowenfeld, de 1977, é um livro direcionado a pais e mães, mas pode, e deve, ser muito bem aproveitado por professoras, principalmente da educação infantil e arte-educadores. O livro, e outros artigos que encontrei, fala sobre os desenhos prontos (estereotipados) que muitas vezes ensinamos as crianças a desenhar ou entregamos para elas colorirem, livros com desenhos para colorir, por exemplo. Sol redondinho com raios simétricos, casinha, árvore, boneco palito, etc, são alguns dos muitos desenhos estereotipados que existem... Aparentemente esses desenhos são inofensivos e a maioria das pessoas acha eles bonitinhos, mas será isso mesmo?
     "A criança direcionada demais, que recebe modelos prontos do adulto para colorir ou para copiar, perde a autoconfiança que deveria desenvolver em face de suas próprias soluções gráficas. Seu desenho torna-se estereotipado, mais padronizado e menos criativo. A criança perde um valioso meio de expressão, e Artes torna-se mais uma tarefa a ser executada, uma técnica a ser aprendida." (Camargo, 1989)
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     Os desenhos estereotipados limitam a criatividade artística das crianças. E mais: nós entendemos que arte é uma linguagem, uma forma de expressão; então ao colorir um desenho pronto/estereotipado, como a criança vai se expressar? Lowenfeld cita o exemplo do desenho de um cão para colorir. Suponhamos que em uma turma de 25 crianças, todos ganhem o mesmo desenho para pintar. Algumas crianças gostam de cachorros, outros tem medo, outros tem raiva. Algumas crianças tem pinscher de estimação, outros tem um labrador... e por aí vai. Como a criança vai conseguir expressar sua relação com cachorro num desenho pronto? Impossível!
     É aí que muitos defendem: "ah, mas é importante as crianças pintarem esses desenhos prontos para aprenderem a respeitar o contorno, os limites das figuras". Foi comprovado através de pesquisas (que Lowenfeld cita no livro) que isso não é verdade: a maioria das crianças não respeita os limites do desenho pronto. Elas se sentem muito mais motivadas quando fazem os seus próprios desenhos e aí vão colori-los. E de qualquer forma, mais cedo ou mais tarde as crianças aprenderão a "respeitar os limites" dos desenhos. 
     É comum as pessoas quererem ensinar crianças bem pequenas (0 a 3-4 anos) a desenhar, no entanto,  nessa idade a coordenação motora da criança está em desenvolvimento. Elas adoram pegar canetas e tintas, gostam das marcas que conseguem deixar no papel, mas nessa faixa etária não estão pensando em representar algum objeto ou pessoa. Na verdade, se você disser a uma criança de 2 anos "vamos desenhar uma laranja", caso soubesse argumentar, ela diria algo mais ou menos assim: "mas laranja é de comer, não de desenhar. Como posso desenhar uma laranja?"
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     Quando a criança tiver sua coordenação motora mais desenvolvida e perceber, no seu tempo, que os movimentos que faz com o braço enquanto segura a caneta tem relação com os traços que vão aparecendo no papel, ela vai começar a desenhar com intencionalidade. Provavelmente começará com círculos e logo estará desenhando figuras humanas e o que mais sua imaginação permitir.
     É importante dizer que todas as fases do desenvolvimento infantil devem ser respeitadas, apesar de os estágios de desenvolvimento serem estabelecidos por idade, cada criança tem seu próprio ritmo. Se ela viver em um ambiente onde é amada e respeitada, certamente se sentirá segura para experimentar e criar.

     Quando compreendi que desenhos prontos não são uma boa ideia, fiquei pensando: poxa, mas quero contribuir de alguma forma para que o aluno se expresse artisticamente, o que fazer? E aí pesquisei, pensei e agora tenho um método básico para usar nesses momentos. Incentivo a criança a observar. Vamos supor que uma criança de 4 anos queira desenhar uma árvore, mas ela diz: "não sei desenhar uma árvore". Se for possível, eu a levo para passear e observar as árvores que estão no caminho. Chamo a atenção dela para os diferentes tipos de troncos, galhos, folhas, as diferentes cores, etc... se ela puder tocar a árvore ou ver suas folhas balançarem com o vento, melhor ainda. Caso não seja possível esse passeio, ajudo ela a encontrar figuras de árvores em revistas, livros e internet. Assim o repertório de experiências e sensações estéticas da criança se amplia e quando for desenhar, certamente ela terá muitas referências de como pode ser uma árvore. Mais ainda, ela pode criar sua própria árvore, guiada por sua imaginação e criatividade!

Quer saber mais sobre esse assunto? Recomendo os seguintes textos:

Arte e crianças: é possível libertá-las dos esterótipos? 
Desenhos estereotipados: um mal necessário ou é necessário acabar com esse mal? 
Pequenos artistas. 
Perigo: coelho pronto para colorir.
Flor vermelha do caule verde. 
Crianças retratam abusos que sofreram em série de desenhos.

4 comentários:

  1. Pois Katy, no meu tempo de infância,
    não tínhamos essa de desenhos prontos,
    nem lápis de cor.
    Mas hoje, a grande maioria já não nasce com eletrônico na mão?
    E estamos vendo o resultado por aí...

    Beijo

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  2. parabéns pela pesquisa, me ajudou muito no meu tcc, q é sobre o desenho

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    1. Que bacana isso! Quero ler o teu tcc, me envia? =D

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