sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dona Eulália

(Diálogo impossível entre este autor e dona Eulália, personagem de um livro, no leito em que ela logo morreria sozinha, sem flores e sem sofrimento.)


*
– Vim aqui para entender, dona Eulália.

– Entender o quê, meu filho? – ela falou, estranhamente sem erros gramaticais e sem palavrões – A vida não tem entendimento. A vida só tem interpretação. E várias. Se sentes falta, escolhe alguma. Tanto faz. Todas elas têm valor igual. Todas elas são criações.

– Eu quero entender a senhora. As escolhas da senhora.

– Eu não escolhi nada. Eu caminhei. Não sei de onde essa ênfase maluca em escolher. Quem guia esse barco não é a gente, meu filho.

– É quem? É deus?

– Deus? Eu não entendo nada de deus. Eu só sei que eu tô aqui, agora, e que eu tô quase morrendo. Só isso me faz sentido. O hoje. O agora. A vida, meu filho, a vida a gente olha pra trás e já era. A vida a gente olha pra frente e não vê.

– Mas a senhora se arrepende de algo?

– O que é que é se arrepender? É querer ter feito alguma coisa diferente? Coisa mais besta, né? Como se fosse possível. Vai mudar o quê? Já não tem culpa demais nesse mundo? Se culpa fosse tijolo dava quase pra construir um outro mundo, mais bonitinho.

– O céu? A senhora está falando do céu? É isso que a senhora está querendo ensinar?

– Ai, meu filho, isso chega a ser engraçado. Eu não quero ensinar nada. Eu, que nunca me importei em aprender, o que é que tenho pra ensinar? Cada um que faça o que quiser. Cada um que pense o que quiser. Pensar não é melhor que fazer. Sofrer não é melhor que gozar. Crer não é melhor que não crer. Rir não é melhor que chorar. Livros não são melhores que bundas. Ir não é melhor que ficar.

– Falando em bunda, o que a senhora pensa sobre sexo? Parece que o mundo gira em torno desse tema.

– Sexo é bom, né?

– Só isso? A senhora sabe quantas teorias e quantas respostas a essas teorias foram baseadas em interpretações do comportamento sexual?

– Não sei e nem quero saber.

– E a morte, dona Eulália? Como será morrer?

– Morrer deve ser como viver. Igualzinho. Assim ó, puf, morri.

Por Gregory Haertel.


***


Esse texto me fez ver que as vezes ficamos analisando pensando demais sobre as situações / atitudes e emoções que acabamos esquecendo de simplesmente viver...


Talvez só nos reste alguns minutos de existência...ou muitos anos... vai saber!
Por isso, vamos viver o hoje, o agora!

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Difícil entender a vida, o viver quando se está em apuros e conflitos.
    Quando tudo são flores, ah..... que maravilha o viver!

    Beijo

    ResponderExcluir

Um pouco de você... "se abra", se entregue...sou toda ouvidos e olhos, a seu dispor!

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