sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Espermograma

Tudo começou quando vim ao hospital fazer um espermograma. Desnecessário dizer que um exame para verificar a qualidade e a mobilidade dos espermatozoides de um indivíduo acarreta certos constrangimentos. Eu, por exemplo, senti-me na pele do sujeito que protagoniza a velha piada: depois de uma hora trancado na salinha de coleta, ele entrega o recipiente vazio para a enfermeira e sussurra:
— Isso nunca aconteceu comigo antes, juro.
Pra piorar, a enfermeira da piada é boazuda e insinuante. Sabe aquele cartaz de hospital em que aparece uma morena de lábios carnudos pedindo silêncio? No meu caso, todavia, as coisas foram diferentes. Não que tenha me saído bem na salinha de coleta — descobri, inclusive, que perdi a habilidade dos meus tempos de estudante. A diferença ficou por conta da enfermeira, que não era morena, muito menos boazuda, mas uma espécie avantajada de “Oma Trude” surda que falava aos berros.
Atravessei a sala de espera — lotadíssima — e me aproximei do balcão para falar com ela:
— Vim fazer um exame. É uma coisa um pouco sigilosa.
— O quê? Doença contagiosa?
— Fale baixo, minha senhora! Quem me encaminhou foi o Dr. Elói Molina.
— Ah, dói quando urina? Então deve ser gonorréia...
Morto de vergonha, fui até a salinha de coleta e me posicionei para... bem... pois é... para pôr mãos à obra, entende? Quem me guiou até lá foi a própria Oma Trude. Abriu uma gaveta cheia de revistas de sacanagem e ligou o televisor em meio a uma cena de, digamos assim, profunda dramaticidade. “Se precisar alguma coisa”, disse ela, sarcástica, “é só me chamar, tá?”
Acho que foi nesse momento que começou a minha crise de impotência. Quando menos esperei, a Oma Trude voltava e batia na porta:
— Tudo bem, moço? Já faz uma hora que você está trancado aí dentro.
Sim, sim, sou o sujeito da piada. Apesar disso, não podia admitir meu fracasso para aquela mulher impiedosa que vivia falando a todo volume. Esquecendo-me de que estava no terceiro andar, abri a janela e mergulhei. Sorte que o socorro veio rápido. Agora estou de cama, com uma perna quebrada e os braços imobilizados por espessas luvinhas de gesso. Vou ditando esta crônica para o meu irmão Jonas, que é capaz de fazer tudo por mim. (Observação do Jonas: nem tudo, pô, nem tudo!).
Resta dizer que não é fácil viver com as mãos inutilizadas. De qualquer forma, agora tenho uma boa desculpa para adiar o espermograma até depois do carnaval.

Do excelente Maicon Tenfen.
FONTE

10 comentários:

  1. kkk...
    Muito bom mesmo...

    Sabe, já vi muitas das salinhas onde se faz a coleta e devo dizer que há desde banheirinho de funcionário com vasouras, baldes e paninhos de molho(arrrrrrrrg) até uma que tem: tv com tela de plasma (passa um filminho maravilhoso), revistas atuais, poltrona confortável, pia e uma iluminação boa... eles deixam um roupão dobradinho e limpinho pra você se trocar e não correr o risco de se sujar todo! Eles te deixam à vontade para esquecer do mundo lá fora... mas tem que se tomar cuidado pois pode ser que você não queira sair mais de lá...

    Miga, um beijão no core!!

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  2. Também com uma enfermeira dessas... kkk
    Muito bom mesmo.

    Bjs
    Feliz Sábado!

    Mah

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  3. caramba.....
    ainda bem que continuou com as habilidades de adolecente... pelo menos 1x por dia....rsss
    bjos

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  4. Dei boas risadas.
    Coitadinho.....

    Excelente domingo

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  5. Muito bom e3 a construção maravilhosa, voce escreve muito bem, estou pensando em tb ter no meu Blog um cantinho para os meus Contos, espero que venha me visitar, amei teu blog, depois vou comentar mais teus escritos, beijos !!!

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  6. Muito boa!
    Cada uma que acontece por aí.
    Beijos!

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  7. Hahahahaha
    Adorei! Vou enviar por email pra um amigo meu!!

    Beijos Katy! =)

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  8. Um beijo e uma linda semana pra ti querida.

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  9. Katy,
    amiga gostei muito desse rsrsrsrs!!
    Muito massa! Num dá pra parar de rir...
    bjos no coração

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Um pouco de você... "se abra", se entregue...sou toda ouvidos e olhos, a seu dispor!

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