terça-feira, 23 de junho de 2009

Continho onírico

Continho onírico.




Súbito, acordei numa sala pintada de branco. Apesar da luz forte em meus olhos, percebi que estava sobre uma mesa cirúrgica. Braços e pernas amarrados, mal contive o grito ao ver as enfermeiras que me cercavam. Três de minhas ex-esposas, a quem devo, há séculos, a pensão alimentícia.

– Não vamos te operar – disseram. – Vamos é te castrar!

Tentei gritar, implorar, mas a voz estava enjaulada. Começaram a me cortar sem anestesia, às gargalhadas.

Súbito, acordei num outro ambiente, um local escuro, meio abafado. Tudo não passou de um pesadelo. Mas aquele não era meu quarto. Não era minha cama. Eu estava numa poltrona estofada, confortável, e segurava no colo um pacote cheio de pipocas cheirosas. Alguém projetou uma luz lá na frente.

Ah, eu estava numa sala de cinema, e era o único espectador. Qual o filme? Algo confuso, com muita música e pouca ação. Atores desconhecidos. De repente, o Seu Lourenço apareceu na tela vestido de oficial nazista. Trazia consigo uma metralhadora portátil. Mas o que o Seu Lourenço, figura pacata da minha infância, queria com aquelas roupas e aquela arma? Quando me viu na plateia, saltou do filme, furioso, e começou a atirar em mim.

– Você nunca mais vai roubar as minhas maçãs – gritava. – Nunca mais!

Súbito, acordei numa cama de casal, ao lado de uma mulher de cabelos negros. Nua? Levantei o cobertor. Sim, nua. Mas quem era? A Dóris? A Rúbia? A Carla? Meu Deus, é a Otacília! Peraí, peraí. Pelo que sei, a Otacília é casada com um oficial da PM. Escandaloso, ele. E ciumento. E este é o quarto do casal, vejo o retrato dele ali ao lado. Isso não parece exatamente um sonho.

– Meu Deus! – diz a Otacília, acordando. – Você aqui? Ainda?
– Acho que dormimos demais.
– Meu marido! Ele sempre chega antes das nove.
Um relógio se materializa diante do meu nariz: 9h 10min.
– Pro armário! – grita Otacília.

Mas é tarde. No lugar do relógio surge o cano de uma 44. O que vi antes não foi o retrato do marido. Ele já estava ali, quietinho, só esperando a gente acordar.

– Eu não queria que terminasse assim – diz, engatilhando a arma. – Mas não tenho escolha. Acho que você me entende, né?
Ele vai atirar. Meu Deus, ele vai atirar. Bangue! E não é que atirou mesmo?

Súbito, acordei numa sala pintada de branco.


By Maicon Tefen.
Jornal de Santa Catarina


Sempre leio a coluna do Maicon Tenfen, ele é um dos críticos mais críticos aqui da região. Tem uma excelente visão sobre todos os assuntos. É inteligente, sagaz e escreve muito bem. Tem muita criatividade. Enfim, é tudo de bom!!!

5 comentários:

  1. Conto interessante, e sinistro rsss

    Bjinhos meu bem...

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  2. Oi!

    Você está certa... ela é a aminha cupida!!

    Bjaum

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  3. ahhhh... revirei os blogs e descobri (com a sua ajuda, é claro!) quem é o sortudo casal que a L. comentou no blog dela!
    hahahahaha



    Bjão Katy

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  4. e MULHER! como assim não sabe em que fase do casamento está?
    vc deveria estar na PRIMEIRA: sexo Smurf!
    creio que é super nova, não?
    (se não for indelicado, quantos anos vc tem?)



    Beijos
    Jota.

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  5. Adorei o texto, e tantos significados ele pode ter.

    Beijos e nnunca deixes de sonhar.

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Um pouco de você... "se abra", se entregue...sou toda ouvidos e olhos, a seu dispor!

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